Hérnia Congênita

Hérnia Diafragmática Congênita no Pré-Natal: o que significa esse diagnóstico?

Descobrir que o bebê tem uma hérnia diafragmática congênita (HDC) durante a gestação pode causar medo, insegurança e muitas dúvidas. Afinal, o que isso representa na prática? Quais são os riscos? E o que a medicina fetal pode fazer?

Com base nas orientações da médica ginecologista, obstetra e especialista em medicina fetal Dra. Samantha Ramos Toledo Pessôa, vamos entender melhor os cuidados antes e após o parto.


A hérnia diafragmática congênita é uma malformação rara que acontece ainda no início da gestação, quando o diafragma — o músculo que separa o tórax do abdômen — não se forma corretamente. Isso permite que órgãos do abdômen “subam” para o tórax, como estômago, intestinos e até mesmo o fígado.

Esse deslocamento ocupa o espaço que deveria ser usado para o desenvolvimento dos pulmões, o que pode causar problemas respiratórios graves ao nascer.


Na maioria dos casos, a HDC surge de forma esporádica, sem ligação com histórico familiar ou hereditariedade. Ainda assim, ela pode estar associada a síndromes genéticas ou a outras malformações fetais. Por isso, quando identificada, é necessário um acompanhamento cuidadoso com exames complementares, para investigar possíveis alterações associadas.


A HDC costuma ser identificada durante o ultrassom morfológico, realizado entre a 18ª e a 24ª semana. Mas também pode ser diagnosticada mais precocemente em um exame obstétrico de rotina. O médico pode observar:

  • Presença de alças intestinais ou fígado no tórax fetal;
  • Deslocamento do coração;
  • Redução no tamanho dos pulmões.

Com essa suspeita, a gestante é encaminhada para uma avaliação com medicina fetal, que pode incluir:

  • Ultrassonografia detalhada com doppler;
  • Ecocardiograma fetal (para avaliar o coração);
  • Ressonância magnética fetal, quando necessário;
  • Exames genéticos, especialmente se houver outras alterações.

Esses exames ajudam a compreender a gravidade do quadro e a planejar os cuidados ideais para mãe e bebê.


Após o diagnóstico de hérnia diafragmática, o acompanhamento é feito de forma mais próxima, com foco em:

  • Avaliar o crescimento fetal e a evolução da condição;
  • Medir o volume pulmonar e a relação pulmão/cabeça (índice LHR);
  • Monitorar a posição e o comprometimento dos órgãos no tórax;
  • Investigar possíveis síndromes associadas;
  • Definir onde e como será feito o parto, garantindo estrutura adequada de suporte neonatal e cirúrgico.

A ideia é construir um plano de cuidados individualizado, com foco na estabilização do bebê ao nascer e na prevenção de complicações.


Sim. Em casos considerados graves, pode ser indicado um procedimento chamado FETO (sigla para fetoscopic endoluminal tracheal occlusion).

Esse procedimento é feito por fetoscopia, onde um pequeno balão é colocado na traqueia do bebê ainda no útero. Esse balão bloqueia a saída do líquido produzido pelos pulmões, fazendo com que eles se expandam e cresçam mais.

O procedimento é temporário e o balão é removido antes do parto. Embora não seja indicado para todos os casos, ele representa uma alternativa em situações de maior risco de óbito ao nascimento. Deve ser realizado por equipes altamente especializadas.


O nascimento de um bebê com HDC deve ocorrer em um hospital com UTI neonatal e equipe cirúrgica experiente. Assim que nasce, o bebê geralmente precisa:

  • De ventilação mecânica, pois a respiração pode estar comprometida;
  • De avaliação constante da pressão pulmonar (para detectar hipertensão pulmonar persistente);
  • De suporte clínico para estabilização;
  • E, após isso, da cirurgia para corrigir a hérnia, movendo os órgãos de volta ao abdômen e reconstruindo o diafragma.

Em alguns casos mais graves, é necessário o uso de oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO) — um tipo de pulmão artificial temporário.


O prognóstico depende de uma combinação de fatores, como:

  • Tamanho da hérnia;
  • Se o fígado também está no tórax (o que indica menor espaço para os pulmões);
  • Desenvolvimento pulmonar estimado;
  • Presença ou não de outras malformações genéticas;
  • Tempo e qualidade do atendimento neonatal.

Com os avanços da medicina, as chances de sobrevida aumentaram significativamente, especialmente quando há diagnóstico precoce e planejamento adequado.

Há crianças com HDC que, após os cuidados iniciais, se desenvolvem muito bem. Em outros casos, o bebê pode ter maior sensibilidade respiratória ou necessidade de fisioterapia após o nascimento.


  • Receber o diagnóstico de uma malformação fetal é sempre um desafio emocional. É importante que os pais:
  • Busquem informação confiável, evitando pânico com fontes duvidosas;
  • Se mantenham próximos da equipe médica, fazendo perguntas e tirando dúvidas;
  • Peçam apoio psicológico, se necessário;

Conheçam outros pais que passaram por situações semelhantes, por meio de grupos de apoio ou iniciativas dos próprios hospitais.

Esse suporte emocional faz diferença não só durante a gestação, mas também no pós-parto e nos cuidados com o bebê.


Sim! Assim que o bebê estiver estável, a amamentação é incentivada. Em muitos casos, ela começa por meio de sonda orogástrica, evoluindo para o aleitamento direto. O leite materno oferece proteção e fortalece o vínculo entre mãe e bebê, tão importante após uma experiência desafiadora.


Importante lembrar: cada caso é único

Apesar de a hérnia diafragmática congênita ter pontos em comum entre os casos, cada bebê é único, assim como cada família. O papel da equipe médica é garantir que todas as decisões sejam tomadas com base no quadro específico, na segurança da gestante e nas melhores perspectivas para o bebê.

A boa notícia é que, com os recursos atuais, há muitos caminhos possíveis para cuidar com amor, técnica e esperança.


Técnica Responsável: Dra. Samantha Ramos Toledo Pessôa
CRM-SP: 104245 – Ginecologista Obstétrica e Medicina Fetal.
Título em GO pela FEBRASGO. Certificado de Atuação em Medicina Fetal pela FEBRASGO.
Imagem: Canva


Fontes utilizadas:

Hospital das Clínicas da USP – Instituto da Criança e do Adolescente (ICr): https://www.icr.usp.br

Children’s Hospital of Philadelphia – Fetal Diagnosis and Treatment:
https://www.chop.edu/conditions-diseases/congenital-diaphragmatic-hernia-cdh

Sociedade Brasileira de Medicina Fetal (SOBRAF):
https://www.sobraf.org

American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG):
https://www.acog.org

International Fetal Medicine and Surgery Society:
https://www.ifmss.org

Jani, J. et al. “Prenatal Prediction of Survival in Isolated Left-sided Diaphragmatic Hernia.” Obstetrics & Gynecology:
https://obgyn.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/pd.2232